A importância da sensibilidade na comunicação de notícias difíceis e os desafios das equipes de saúde diante do sofrimento de mães e familiares foram alguns dos assuntos do 2º Encontro de Humanização do Luto Materno e Parental nesta segunda-feira, 26 de outubro, no Hospital Fêmina (HF), em Porto Alegre. Promovida em alusão ao mês de conscientização sobre o luto gestacional, neonatal e infantil, a atividade reuniu, no auditório do HF, trabalhadores de diferentes áreas para discutir estratégias de acolhimento e apoio às pessoas que enfrentam essas situações.
Na abertura, a coordenadora de Enfermagem do hospital, Gisele Karasek, salientou a necessidade de ampliar o debate entre os profissionais de saúde. "É uma mobilização sobre um tema de tamanha importância. Assuntos delicados nem sempre recebem a visibilidade que merecem, e isso acaba nos distanciando da sensibilidade necessária para lidar com essas ocorrências", afirmou.
A comunicação de más notícias foi o tópico abordado pela neonatologista Mariana Eberle Sehbe a partir do protocolo SPIKES, utilizado para orientar a transmissão de dados sensíveis aos pacientes e familiares. A exposição tratou de cenários como diagnósticos graves, necessidade de internação e enfrentamento da morte, considerando a insegurança dos trabalhadores, o receio de provocar aflição e a carga emocional envolvida. Além da clareza das mensagens, foram evidenciadas necessidades como tom de voz, postura corporal e atenção às reações de quem recebe a notícia.
A neonatologista também questionou a ideia de que os trabalhadores da área da saúde devem manter distanciamento emocional em instantes de sofrimento. "Muitas vezes, acredita-se que os profissionais não devem manifestar emoções ou sentir junto com os pacientes. É o contrário: demonstrar que sentimos e nos emocionamos faz parte da humanização. A parte técnica, os protocolos e o treinamento são fundamentais, mas o diferencial na assistência está nessa capacidade de empatia e cuidado", pontuou Mariana Eberle Sehbe.
Troca de experiências
A programação discutiu medidas que podem tornar os períodos de despedida mais respeitosos, como preservar a privacidade, reduzir a iluminação quando adequado, evitar conversas desnecessárias próximas ao leito e utilizar linguagem clara, acompanhada de uma postura serena. As orientações mostraram como atitudes simples no ambiente hospitalar podem contribuir para proporcionar tranquilidade e dignidade em circunstâncias críticas.
Essas questões foram discutidas nas apresentações sobre o acolhimento familiar na prática, conduzidas pela neonatologista Patrícia Treptow, e sobre a rotina humanizada da perda, com a técnica de enfermagem Evelyn Rodrigues, integrante da Comissão de Luto Materno e Parental do HF. O período da manhã foi encerrado com uma troca de experiências, permitindo compartilhar relatos e dificuldades vivenciadas pelas equipes em casos de morte neonatal.
Direitos, espiritualidade e cuidados paliativos
À tarde, o evento teve como foco os direitos das pessoas enlutadas e a importância das redes de apoio. A presidente da ONG Amada Helena, Tatiana Maffini, detalhou a atuação da entidade e a legislação federal relacionada ao tema. Outro assunto contemplado foi o papel da espiritualidade como fonte de conforto nas fases de dor, em atividade conduzida pela capelã laica do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Lígia Gomes Carneiro.
Os cuidados paliativos perinatais e seus desafios também integraram o encontro, em painel da médica paliativista Renata Périco. A explanação enfatizou a importância de garantir conforto e dignidade aos bebês diante de condições graves que ameaçam a vida, considerando suas necessidades clínicas e o suporte emocional aos familiares.
Créditos: Gabriel Amaral (Texto). João Gabriel Lopes (Fotos).