Evento organizado pelo Comitê de Ações Afirmativas da Comissão de Residência Multiprofissional em Saúde (Coremu) reuniu trabalhadores para discutir o preconceito e fortalecer políticas inclusivas no ensino assistencial
A temática antirracista foi o centro dos debates de uma atividade na tarde desta quinta-feira, 22 de outubro, no Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Organizada pelo Comitê de Ações Afirmativas da Comissão de Residência Multiprofissional em Saúde (Coremu), a iniciativa teve o tema “Racismo e a formação de profissionais da saúde” e reuniu residentes, preceptores, orientadores de campo e demais parceiros do programa em debates e troca de experiências.
A Coremu é o órgão colegiado responsável por coordenar, estruturar, acompanhar e avaliar os programas de Residência Multiprofissional e em Área Profissional da instituição, abrangendo diversas especialidades e com atuação integrada no Sistema Único de Saúde (SUS). Realizado no Auditório Jahyr Boeira de Almeida, no Centro Administrativo do GHC, o encontro foi estruturado para reforçar a oferta de espaços contínuos de instrução, debate e letramento racial.
Além da discussão sobre o impacto da discriminação na prática em saúde, a agenda teve como foco central a qualificação das ações afirmativas no âmbito das residências. A importância do apoio à diversidade e o papel democrático da saúde pública brasileira também estiveram entre os tópicos abordados.
“Queremos que o Sistema Único de Saúde seja afirmativo em relação às identidades e às diversidades étnica, racial, genética, de gênero e religiosa. Essa pluralidade também tem que aparecer aqui. É a forma que as políticas públicas construíram para recuperar este tempo que foi perdido ao longo da história do país, pois muita gente foi deixada para trás”, destacou João Constantino Pavani Motta, diretor Administrativo e Financeiro do GHC.
Quelen Tanize Alves da Silva, diretora de Inovação, Gestão do Trabalho e Educação do GHC, enfatizou a urgência de vincular a assistência ao enfrentamento das exclusões e relembrou sua trajetória de inclusão por meio do estudo. “Não há como pensarmos no acolhimento, na estruturação de fluxos e na saúde que se organizam nessa dinâmica sem considerar as diferenças e como elas moldam os processos de atenção. Em muitos casos, pessoas são excluídas. Eu entrei em uma universidade pública pela política de cotas e tenho orgulho de falar isso, porque participei de um processo de democratização dessas instituições”, afirmou.
As raízes históricas do racismo
A programação apresentou uma palestra seguida de bate-papo com o mestre em Psicologia e doutor em Saúde Coletiva Tadeu de Paula. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Grupo de Pesquisa Egbé: Negritude, Clínica e Políticas do Comum, o docente conduziu uma análise das bases teóricas do preconceito racial no país.
Durante a exposição, o acadêmico abordou as nuances da discriminação no cotidiano assistencial: “Existe um tipo de racismo que identificamos facilmente: a injúria racial. No entanto, na maior parte do tempo, não é assim que ele se exerce. Ele se apresenta de uma maneira que tem a ver com um olhar ou com um não olhar”.
Na avaliação do palestrante, o racismo científico foi incorporado pela elite intelectual e médica para legitimar formas de controle social. “Quando a saúde surgiu, a principal teoria para justificar as mazelas da população passava pela hierarquia racial. Ou seja, no conjunto da espécie humana, existe uma hierarquia na qual alguns grupos têm maior propensão à tuberculose, à sífilis, à doença mental. Essa era a teoria que ganhava mais força naquele momento”, relatou.
Compromisso institucional com a equidade
De acordo com a organização do evento, promover momentos de reflexão para a comunidade acadêmica e de trabalhadores do GHC é fundamental para consolidar práticas inclusivas, desde a base teórica até o atendimento prestado aos usuários do SUS. Tadeu de Paula acrescentou que é necessária uma postura ativa e transformadora nas entidades públicas. “Ninguém escolhe ser racista. O que podemos escolher é ser antirracista. Nas instituições, há a necessidade de ter o antirracismo como diretriz de cuidado e de gestão”, argumentou.
Luta diária na sociedade
Thaiani Farias Vinadé, coordenadora da Coremu do GHC, salientou que ações como as do Comitê de Ações Afirmativas contribuem para a prática clínica e para as relações humanas e coletivas dentro e fora das unidades. Na avaliação dela, debater o racismo em uma instituição pública como o GHC é uma forma de manter ativo o debate sobre o preconceito racial no país.
“As cotas na residência e a formação do comitê foram movimentos de resistência e ainda são motivo de batalha para que continuem. Hoje, ter este auditório cheio, com as pessoas ficando até o final, participando, interessadas e tocadas pelo tema, faz com que a gente saia daqui multiplicando essas ideias, não apenas para os pacientes que vamos atender, mas para os colegas com quem vamos nos relacionar”, finalizou.
Créditos: Gabriel Dias (Texto). João Gabriel Lopes (Fotos).