A dificuldade de reconhecer dores que nem sempre são identificadas nos exames e avaliações clínicas, os impactos emocionais e sociais do adoecimento e os obstáculos para garantir o alívio adequado dos sintomas estiveram no centro do 1º Encontro de Cuidados Paliativos do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), que ocorreu nesta sexta-feira, 9 de outubro. Realizado em alusão ao Dia Mundial de Cuidados Paliativos, celebrado em 10 de outubro, o evento reuniu trabalhadores da rede do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e de outras entidades da área para compartilhar vivências e refletir sobre estratégias de qualificação da assistência a pessoas com doenças graves e seus familiares.
Voltada a profissionais, residentes e estagiários, a programação foi construída a partir de situações enfrentadas no cotidiano dos serviços de saúde, aproximando o conhecimento científico das experiências de quem atua diretamente na assistência. Organizados em dois blocos, os debates contemplaram desde as manifestações menos visíveis do sofrimento até as barreiras relacionadas ao tratamento da dor física.
Para a médica paliativista do HNSC Cláudia Inhaia, a atuação da área deve ser compreendida como parte do tratamento, e não como uma alternativa reservada aos momentos finais da vida. “O cuidado paliativo é considerado uma camada extra da assistência. A gente trabalha muito para que não tenhamos uma visão dicotomizada: ou o trabalho é curativo, ou paliativo. Aqui no Conceição, trabalhamos em conjunto com as outras equipes do hospital, tentando proporcionar às pessoas com doenças graves uma qualidade de vida melhor”, explica.
Reconhecimento das diferentes dimensões da dor
O primeiro bloco abordou as dificuldades para identificar e avaliar manifestações que nem sempre são percebidas pelos métodos tradicionais de atendimento. Entre os pontos apresentados estiveram as limitações da mensuração da dor, as diferenças entre o que o paciente relata e o que fica registrado no prontuário, além da influência de fatores emocionais e espirituais na experiência do adoecimento. Os especialistas destacaram a importância de uma escuta qualificada e de uma avaliação que considere as particularidades de cada pessoa.
O médico psiquiatra Igor Vinícius Ferraz Capucho, do Serviço de Cuidados Paliativos do HNSC, discutiu os riscos de rotular pacientes a partir de suas reações e comportamentos, sem compreender as necessidades emocionais que podem estar por trás dessas manifestações. “Quando um paciente é considerado difícil, existe o risco de olharmos apenas para o comportamento e deixarmos de reconhecer o sofrimento que está por trás dele. Muitas vezes, aquilo que parece resistência ou dificuldade de colaboração é uma forma de expressar uma dor que ainda não conseguiu ser compreendida”, destaca.
As repercussões sociais do adoecimento também tiveram espaço no encontro. A assistente social Fernanda Brenner apresentou a perspectiva da chamada dor social, que considera as condições de vida das pessoas e os efeitos da doença sobre suas famílias. “O adoecimento gera muitos impactos na vida e na dimensão comunitária, tanto na questão do trabalho quanto na organização da família, na renda e no acesso aos serviços. Nosso papel é avaliar de que forma isso interfere e pensar em um plano que tente garantir ou minimizar esses impactos”, afirma.
Manejo da dor física e acesso às possibilidades de tratamento
O segundo bloco concentrou as discussões nas dificuldades para garantir o controle dos sintomas físicos, mesmo quando suas manifestações são mais evidentes. Os palestrantes destacaram os limites de uma assistência baseada exclusivamente na prescrição de medicamentos e a contribuição da reabilitação, do movimento e de outras intervenções para promover conforto e funcionalidade conforme as condições de cada paciente.
A programação contemplou ainda a subestimação da dor na infância e os receios relacionados ao uso de opioides, medicamentos importantes para o controle de determinados quadros dolorosos. Conhecida como opiofobia, essa resistência pode representar uma barreira ao tratamento quando impede ou atrasa a utilização adequada desses fármacos, mesmo diante de indicação clínica. Outro ponto debatido foi o encaminhamento tardio para procedimentos intervencionistas, que podem contribuir para o alívio da dor em situações específicas.
A médica Luciana Saavedra, do Serviço de Cuidados Paliativos do HNSC, chamou a atenção para a necessidade de considerar esses recursos no momento oportuno, conforme a avaliação clínica e as necessidades individuais. “Muitas vezes, os procedimentos intervencionistas acabam sendo lembrados somente quando o paciente já passou por um longo período de sofrimento. É importante reconhecer que essas alternativas podem fazer parte da assistência em diferentes etapas, desde que exista indicação adequada, para que a pessoa não precise esperar a dor se tornar insuportável para ter acesso a outras possibilidades de alívio”, ressalta.
No Hospital Nossa Senhora da Conceição, o Serviço de Cuidados Paliativos dispõe de 16 leitos de internação e realiza cerca de 80 consultas ambulatoriais por semana. Entre junho e agosto de 2026, recebeu 502 solicitações de consultoria de outros setores do hospital. A instituição mantém ainda residência médica na área e, desde 2026, uma residência multiprofissional, contribuindo para a formação de profissionais e a qualificação do Sistema Único de Saúde (SUS).
Créditos: Gabriel Amaral (Texto). João Gabriel Lopes (Fotos).