O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) iniciou, na manhã dessa quinta-feira, 24 de setembro, a primeira edição do Curso de Agentes de Promoção da Saúde da População Negra para atuação no Sistema Único de Saúde (SUS). Sob o lema "Valorizar pessoas. Criar um ambiente antirracista", o evento contou com a participação da ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, e reuniu comunidade, funcionários da instituição, especialistas no assunto e imprensa no Auditório Jahyr Boeira de Almeida, no Centro Administrativo do GHC, em Porto Alegre.
A aula magna do curso foi conduzida pela ministra, que destacou a urgência de consolidar um sistema de saúde universal, equitativo e estruturalmente antirracista. Ela salientou que o racismo atua como uma barreira histórica e um determinante social que afeta quem adoece e quem acessa os cuidados. Por isso, existe a necessidade de um olhar focado nas especificidades e na interseccionalidade da população negra, com especial atenção às mulheres.
“A existência de uma saúde plena e democrática não acontece quando o racismo é o vetor que determina quem adoece, quem tem dificuldade de acessar o cuidado e quem é menos escutado. Precisamos fazer com que a pessoa negra não seja revitimizada no atendimento, que encontre acolhimento, seja compreendida e que as suas questões sejam consideradas”, disse a ministra.
Com foco na saúde pública, Rachel Barros apelou aos profissionais para que utilizem a formação contínua no tema oferecida pelo GHC como um motor de empatia e de melhoria no acolhimento e nos atendimentos aos usuários do sistema público de saúde.
"Fortalecer o SUS é torná-lo cada vez mais antirracista. É assim que o princípio da universalidade se sustenta. Temos a oportunidade de transformar conhecimento em prática, prática em mudança institucional e mudança institucional em garantia de direitos", acrescentou a ministra.
Em busca de uma sociedade igualitária
A diretora de Inovação, Gestão do Trabalho e Educação do GHC, Quelen Tanize Alves da Silva, celebrou o desenvolvimento do sistema de saúde público como uma conquista solidária e universal, capaz de oferecer atendimento integral que respeita as diferenças e enxerga a saúde para além da ausência de doenças. Por fim, ressaltou a importância do fortalecimento e do financiamento do SUS para a defesa da vida e para o amparo da população negra.
“O SUS traz um debate de um sistema e de uma sociedade que são solidários, onde todos trabalham para que todo mundo tenha acesso e oportunidades iguais. É preciso que seja compreendido como uma política pública essencial para todos e todas”, comentou a diretora.
Fernanda Vargas, presidente da Comissão Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Ceppir) do GHC, destacou o trabalho realizado na instituição em prol da equidade racial. Ela enfatizou a dimensão humana e afetiva do cuidado prestado, recordando que tratar de um paciente é cuidar "do amor de alguém", ao mesmo tempo que celebrou conquistas institucionais nas últimas décadas.
"Nós estamos fazendo não somente uma reparação histórica, mas garantindo acesso a todas as pessoas. O GHC abraçou a causa de cotas mesmo antes de ser uma lei nacional”, disse Fernanda.
A mesa de apresentação também contou com falas de Valquíria Inês Pacheco Martins, gerente da UPA Moacyr Scliar, e João Constantino Pavani Motta, diretor Administrativo e Financeiro do GHC.
Troca de informações
Na continuidade da atividade, Lisane Vieira dos Santos, chefe de Gabinete da Diretoria do GHC, compartilhou os resultados da sua dissertação de mestrado, focada nas repercussões psicossociais da atuação de mulheres negras ativistas, destacando que, apesar de o ativismo fortalecer a causa, também adoece as participantes devido ao acúmulo de violências e frustrações com as falhas do Estado.
Ela relatou a sua trajetória como a primeira aluna cotista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e explicou as experiências de racismo desde a infância. Por fim, Lisane descreveu como a sua pesquisa tem fomentado debates acerca do racismo dentro da academia e deu detalhes sobre seu atual projeto de doutorado, voltado a investigar a vivência de mulheres negras na pós-graduação.
“O racismo aparece como uma experiência repetida e naturalizada, mas seus efeitos não são naturais nem individuais. É um sofrimento por uma estrutura social. Precisamos aprender a escutar em vez de silenciar e, sobretudo, precisamos agir nesse assunto”, comentou.
Também participou do evento Elaine Oliveira Soares, enfermeira e servidora da prefeitura de Porto Alegre, que falou sobre o trabalho de promotores e promotoras em saúde da população negra da capital gaúcha. Cândida Fernanda da Silva Rosa Bergqvist, inspetora da Polícia Civil, e Vinícius Nahan dos Santos, delegado da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância de Porto Alegre, encerraram a manhã com discussões sobre o tema do racismo no trabalho de agentes da segurança pública do Rio Grande do Sul.
Sobre o curso
O Curso de Agentes de Promoção da Saúde da População Negra qualifica trabalhadores e agentes sociais para a promoção da equidade racial no SUS. Com aulas até dezembro, a iniciativa aborda temas relacionados à saúde da população negra, como racismo institucional, religioso e ambiental, epidemiologia do racismo, práticas antirracistas no SUS e participação social.
Créditos: Vinícius Coimbra (texto). João Gabriel Lopes (fotos).