O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II Bem Viver) do Grupo Hospitalar Conceição promoveu, durante reunião de equipe no dia 8 de setembro, atividade de Educação Permanente em Saúde centrada no debate sobre as interseccionalidades no contexto da saúde mental. A pauta nasceu de forma orgânica e ascendente, partindo de reivindicações de usuários no Conselho Local, que demandaram maior letramento de equipes de saúde que lhes atendem. Essa mobilização transitou para a reunião de planejamento ocorrida em julho e culminou na estruturação do grupo de trabalho de Interseccionalidades, conduzido por profissionais e residentes do serviço, com o apoio matricial de Fátima Fischer, supervisora clínico-institucional da Fiocruz que acompanha o CAPS II neste ano.
O evento contou com a facilitação do convidado Ricardo Charão, ampliando a compreensão da equipe sobre os atravessamentos sociais no processo de adoecimento. A discussão central enfatizou a necessidade de o serviço adotar novas lentes analíticas para enxergar além dos sintomas. Foi debatido como os usuários possuem pontos de partida desiguais no acesso à saúde, sendo imperativo que o contexto familiar, a trajetória de vida e as condições socioeconômicas sejam considerados na construção dos Projetos Terapêuticos Singulares.
Sob essa ótica, a equipe realizou discussão de casos clínicos reais com diagnósticos semelhantes, evidenciando como os marcadores de interseccionalidade exigem manejos distintos. O debate tensionou o conceito de "não adesão ao diagnóstico ou tratamento", retirando os profissionais de uma posição de conforto para questionar criticamente as barreiras invisíveis do próprio serviço. Discutiu-se também a incidência da sobrecarga de gênero, tanto na ponta da assistência familiar quanto na própria dinâmica de uma equipe de saúde majoritariamente feminina, e o constante desafio clínico de equilibrar os combinados coletivos do serviço sem anular a singularidade do usuário.
A Educação Permanente em Saúde consolidou a premissa de que existem vazios informacionais nos prontuários médicos que só podem ser preenchidos quando a equipe se desloca para o território amparada por essas lentes interseccionais. O encontro reafirmou o compromisso do CAPS II Bem Viver com a transição da atenção estritamente psiquiátrica para a atenção psicossocial e o trabalho em rede, garantindo que o princípio da equidade opere de forma concreta.
Créditos: Rodrigo Leal de Menezes e Lidiele Berriel de Medeiros.