A rotina, os desafios e a importância do sangue foram alguns dos tópicos abordados na 3ª Jornada de Hemoterapia do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), durante a manhã desta quinta-feira, 17 de setembro. Os profissionais participaram de palestras e de conversas no Auditório Jahyr Boeira de Almeida, no Centro Administrativo GHC, em Porto Alegre.
Com a participação de especialistas e trabalhadores da saúde, o evento teve o objetivo de promover a atualização técnica, a integração entre equipes e a qualificação continuada dos processos relacionados à hemoterapia, com foco na assistência prestada aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A mesa de abertura teve a participação da médica Kátia Fassina, coordenadora da jornada, de Carolina Gasperin, gerente dos Serviços Auxiliares de Diagnóstico e Tratamento (SADT) do GHC, e de Ketrin Pletsch, representante da Diretoria de Atenção à Saúde.
Kátia Fassina foi a primeira a falar durante a manhã e abordou o conceito de “Patient Blood Management (PBM)”, também conhecido como manejo do sangue do paciente, e os desafios de implementá-lo no ambiente hospitalar. Segundo ela, essa atuação visa reduzir as transfusões ou manter as indicações cada vez mais criteriosas, ações que focam diretamente na proteção e na segurança do paciente. Kátia ainda destacou a importância de minimizar perdas sanguíneas (como exames desnecessários ou hemorragias) e melhorar a tolerância à anemia antes, durante e após cirurgias.
"O PBM não depende de um único profissional ou de um setor. Exige uma mudança de processos, uma integração entre equipes e, principalmente, uma mudança de cultura. O desafio não é saber o que fazer, porque existem infinitos protocolos que se aplicam à nossa realidade. O desafio é fazer acontecer. E fazer acontecer significa identificar, tratar, prevenir e otimizar”, comentou a médica.
Em busca de doações
O ciclo do sangue em hospitais não é possível, porém, sem doadores. Essa busca para abastecer os estoques encabeçou as trocas de experiências entre os presentes na mesa “A jornada do doador em transformação: captação, triagem e acolhimento”. Além dos profissionais do Banco de Sangue do GHC, participaram representantes do Hemocentro do Rio Grande do Sul, da Santa Casa de Porto Alegre, do Banco de Sangue Virtual e da Liga do Sangue.
A enfermeira responsável pela captação de doadores no GHC, Andréa Porcher, detalhou como é o trabalho feito pela instituição e o balanço das doações nos últimos meses. Ela citou a importância da educação e do engajamento comunitário, destacando ações culturais para ampliar o alcance do tema, entre elas apresentações musicais e a presença da mascote Gotita, criada recentemente pelo GHC para atuar na divulgação do assunto.
Andréa comparou o relacionamento com o doador a um processo de "pós-venda" e enfatizou que enviar uma mensagem de agradecimento no dia seguinte à doação é uma estratégia fundamental para criar vínculo e fazer com que a pessoa retorne. “A captação precisa ter uma comunicação eficiente porque é fundamental fidelizar os doadores. A lógica é simples: se as pessoas gostam da forma como se conectam conosco, vão repetir o ato de doar. Por isso, a gratidão é uma estratégia poderosa e que fideliza: doadores que recebem um agradecimento sincero ficam felizes, e isso faz toda a diferença para que retornem", acrescentou a enfermeira.
Educar a sociedade é um desafio
Manter abastecido o estoque de sangue é um dos desafios diários enfrentados por Patrícia Paim Ferreira Seltenreich, que atua com a gestão da captação de doadores no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).
A palestrante relembrou a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, para ilustrar que apelos em massa sem planejamento geram um pico incontrolável de doações (300 em um dia), o que sobrecarrega a equipe, gera desperdício de sangue que não será utilizado e não resolve a necessidade de estoque contínuo. Outro tópico abordado foi como comunicar a necessidade na mídia.
"Precisamos educar diariamente a população. Ir à TV fazer um apelo deve ser tratado como um plano de contingência, e não como a nossa rotina. Nas tragédias, se não existir planejamento, esgotamos as pessoas e desperdiçamos hemocomponentes. Nós não precisamos de sangue a mais, nem de menos; precisamos da quantidade certa, todos os dias", comentou.
Patrícia também falou sobre a flexibilização da doação, a partir da Portaria 11.685/2026 do Ministério da Saúde (MS), que entra em vigor no próximo dia 30 de setembro e muda regras relacionadas ao tempo de inaptidão para doar e à idade. "A nova regulamentação quebra mitos históricos e diminui o tempo de inaptidão para tatuagens e piercings. Comunicar essas novas permissões hoje é a ação de captação mais poderosa que um hemocentro pode ter”, concluiu.
Créditos: Vinícius Coimbra (texto). João Gabriel Lopes (fotos).