A articulação dos diferentes pontos de atenção à saúde para garantir um atendimento seguro às mulheres e aos recém-nascidos esteve no centro dos debates do “Seminário Rede Alyne: um cuidado em rede, pela vida das mulheres e das crianças”, realizado nessa quinta-feira, 10 de setembro, pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Ao longo do dia, profissionais de diferentes áreas discutiram estratégias para aprimorar o pré-natal, organizar os fluxos entre os serviços e fortalecer boas práticas, com atenção à equidade, à autonomia das mulheres e ao enfrentamento do racismo e da violência obstétrica.
Na abertura, a gerente de Atenção Primária em Saúde do GHC, Gerusa Bittencourt, destacou que a qualidade do acompanhamento durante a gravidez depende da articulação de toda a linha de cuidado. “Queremos produzir reflexões e encaminhamentos que contribuam para garantir a melhor assistência às mulheres e aos recém-nascidos em um momento tão especial como a gestação e o parto. Um trabalho de excelência exige uma rede integrada e qualificada em sua totalidade, desde a equipe das unidades de saúde até os profissionais que acompanham o nascimento”, afirmou.
A coordenadora nacional da Rede Alyne, Mariana Seabra, apresentou os principais eixos da estratégia e ressaltou a promoção da equidade étnico-racial como uma das medidas fundamentais para reduzir a mortalidade materna. Ela destacou ainda a saúde sexual e reprodutiva como parte dessa abordagem, com foco no planejamento familiar e no acesso a métodos contraceptivos. “Buscamos fortalecer essa agenda por meio de mais orientação e educação, tanto para os profissionais quanto para a população, ampliando o conhecimento sobre o ciclo reprodutivo e as diferentes possibilidades de contracepção”, explicou.
Integração entre Atenção Primária e assistência obstétrica
A primeira mesa da manhã reuniu profissionais do pré-natal de alto risco, dos centros obstétricos e da Atenção Primária para discutir a articulação entre os serviços. Entre os temas esteve a estratificação periódica do risco gestacional, que permite identificar mudanças ao longo da gravidez e encaminhar cada mulher para o serviço mais adequado. Nos casos de maior risco, o pré-natal pode envolver consultas mais frequentes, exames específicos e atuação multiprofissional, garantindo um cuidado mais individualizado e contribuindo para reduzir intercorrências para a mãe e o bebê.
A discussão também ressaltou o papel das unidades de saúde, onde o cuidado pode começar ainda antes da gestação. A proximidade das equipes com a população favorece a identificação precoce de necessidades, enquanto a integração com os serviços obstétricos contribui para garantir a continuidade da assistência. Além dos aspectos clínicos, foram abordadas estratégias de preparação para o parto, como técnicas de relaxamento e concentração e medidas para redução da ansiedade, visando fortalecer a participação da mulher nas decisões relacionadas à gestação e ao parto.
A experiência de quem utiliza a rede
A manhã ainda contou com o relato da usuária Marina Letícia Franco, acompanhada pela Unidade de Saúde Jardim Leopoldina durante a gestação da filha, Maria Júlia. “Foi uma experiência muito boa. A descoberta da gestação acabou acontecendo um pouco mais tarde, mas, desde a confirmação, recebi um acompanhamento bastante completo, com consultas e construção do plano de parto. Até hoje, a equipe da unidade segue próxima da gente. Quando tive dificuldades com a amamentação, também recebi no Hospital Fêmina toda a orientação das enfermeiras do Banco de Leite sobre como fazer. Esse apoio fez muita diferença”, afirmou.
Logística e atuação no parto
Na programação da tarde, uma das mesas abordou a logística do cuidado às gestantes na Rede de Atenção à Saúde (RAS), com participação de representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Secretaria Estadual da Saúde e da rede municipal de Porto Alegre. O debate tratou da proposta da Rede Alyne para organizar o percurso das gestantes entre os diferentes serviços, buscando garantir o encaminhamento adequado e o acesso à assistência necessária no momento oportuno. Também foi destacada a relação entre território e cuidado, com atenção à identificação de barreiras geográficas e sociais que podem dificultar esse percurso.
A atuação da enfermagem no parto também integrou a programação, em debate com representação da coordenação nacional da Rede Alyne e do Centro Obstétrico do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC). Foram abordados os marcos que orientam a prática profissional e o papel da enfermagem obstétrica na adoção de boas práticas, no suporte à gestante e na promoção de um parto seguro e humanizado. Esse trabalho é parte importante da proposta da Rede Alyne, especialmente para fortalecer a autonomia das mulheres e a articulação entre as diferentes etapas da atenção materna.
Enfrentamento ao racismo e à violência obstétrica
Outro eixo foi o enfrentamento do racismo obstétrico e a promoção de uma assistência antirracista, em discussão que reuniu profissionais da Atenção Primária, do Centro Obstétrico do HNSC, do Hospital Fêmina e da Comissão Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Ceppir) do GHC. A mesa abordou a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, a importância da equidade no atendimento e o papel das equipes, especialmente da enfermagem, no reconhecimento de situações de discriminação, na intervenção e no encaminhamento adequado. O trabalho da Ceppir também foi apresentado como parte das ações institucionais voltadas à promoção da igualdade racial no GHC.
A discussão teve continuidade com a mesa sobre violência obstétrica, que reuniu representantes do HNSC, do Hospital Fêmina e da Gerência de Atenção Primária em Saúde (Gaps). O debate reforçou a importância de reconhecer práticas que possam comprometer a autonomia e a dignidade das mulheres durante a gestação, o parto e o pós-parto, além de promover um atendimento baseado em informação, respeito e participação da gestante nas decisões sobre o próprio parto. Esses princípios estão alinhados às diretrizes da Rede Alyne para a garantia dos direitos das mulheres na assistência materna.
Uma rede que carrega a história de Alyne Pimentel
A Rede Alyne leva o nome de Alyne Pimentel, mulher negra e moradora de Belford Roxo, no Rio de Janeiro, que morreu em 2002, aos 28 anos, quando estava grávida de seis meses. Ela deixou uma filha de cinco anos. O caso ganhou repercussão internacional e tornou-se um marco no reconhecimento da morte materna por causas evitáveis como uma violação dos direitos humanos das mulheres.
Ao adotar seu nome, a estratégia reafirma o compromisso com o enfrentamento das desigualdades que ainda afetam o acesso e a qualidade do acompanhamento durante a gestação, o parto e o puerpério, especialmente entre mulheres negras e em situação de maior vulnerabilidade.
Créditos: Gabriel Amaral (Texto). João Gabriel Lopes (Fotos).