Uma internação interrompe rotinas, modifica papéis familiares e pode colocar o paciente diante de situações que, até então, pareciam distantes: limitações físicas, procedimentos complexos, possibilidade de sequelas e a morte. É nesse cenário que a psicologia hospitalar atua, ao considerar não apenas a doença, mas a pessoa que vive o processo de adoecimento e as relações que a cercam.
Esses foram alguns dos tópicos discutidos nessa terça-feira, 18 de agosto, durante a Jornada de Psicologia Hospitalar do Hospital Cristo Redentor (HCR), em Porto Alegre. Com o tema “Paciente, família e equipe na cena hospitalar”, o evento reuniu profissionais do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) para discutir diferentes dimensões do trabalho da psicologia dentro dos centros de saúde.
Coordenadora do Serviço de Psicologia do HCR, Estefânia Zanatta destacou que a internação pode provocar uma ruptura importante na vida do paciente. A pessoa deixa de controlar aspectos da própria rotina e passa a depender de outras pessoas para atividades que antes realizava de forma autônoma. Em internações prolongadas, essa experiência pode ser ainda mais difícil, especialmente quando há necessidade de permanecer no hospital durante semanas para a realização de tratamentos.
“Por mais que não seja uma novidade, ir para o hospital significa sempre uma interrupção, é algo que ninguém faz por escolha. Isso gera o sentimento de impotência, de dependência, de não poder fazer essas escolhas, desde a mais simples, como o horário de tomar banho, o horário da alimentação, até toda a rotina que se modifica. Também aparecem o medo, o luto, a possibilidade de morte, a finitude”, afirmou Estefânia, durante uma das palestras da manhã.
Saúde mental
A situação pode envolver diferentes reações emocionais, como ansiedade, angústia, insônia, estresse, tristeza, medo, impotência, culpa, revolta, frustração, desamparo e insegurança. Segundo Estefânia, o impacto da hospitalização não é determinado apenas pela gravidade do quadro clínico. A história de vida, os recursos de enfrentamento, a rede de apoio, o momento da vida e as características das limitações também influenciam a maneira como cada pessoa atravessa a experiência.
“É sempre importante estarmos atentos à história individual, aos recursos de enfrentamento que essa pessoa tem ou que ela vai desenvolver, porque é disso que vão depender os efeitos. Percebo o papel da psicologia como um promotor de cuidado ampliado”, completou.
Nesse contexto, a atuação não deve limitar-se ao atendimento individual. Segundo Ricardo Vigolo de Oliveira, outro psicólogo palestrante, o profissional pode acolher e orientar familiares, participar de discussões com as equipes, facilitar a comunicação e contribuir para a transição de cuidados e os encaminhamentos necessários. Também pode ajudar a identificar dúvidas e angústias que nem sempre aparecem de maneira explícita durante uma consulta ou conversa com a equipe médica.
“Na maioria dos casos, as situações vividas são inesperadas, pegam de surpresa pacientes e familiares. Eles sentem o sofrimento pelo desamparo. De uma hora para outra, aparece a pergunta: o que vai acontecer comigo? Quem já passou pela situação de ter um familiar que foi levado de ambulância para um atendimento? Eu já passei por isso e é desesperador. É algo que tem um impacto psicológico muito grande”, disse o especialista.
A pessoa por trás do paciente
Anelise Kirst da Silva, psicóloga que atua na UTI Adulto do Hospital Nossa Senhora da Conceição, abordou a experiência da psicologia hospitalar diante do sofrimento e das situações de maior gravidade. Para ela, um dos papéis centrais da área é dar espaço à subjetividade do paciente em meio a um ambiente marcado pela doença, pelos procedimentos e pelas necessidades clínicas. “A psicologia hospitalar vai dar voz à subjetividade do sujeito em sofrimento e favorecer a organização das emoções presentes no momento da vida que pode parecer insuportável e infeliz”, afirmou.
A perspectiva apresentada por Anelise parte de uma pergunta que ganha importância dentro do hospital: quem é a pessoa por trás do paciente? Em um ambiente em que a identificação frequentemente passa pelo número do leito e pela doença, a psicologia busca recuperar a dimensão subjetiva daquele indivíduo e ajudá-lo a atravessar o processo de adoecimento.
“No hospital, estamos acostumados a falar ‘paciente’. Paciente, número do leito, doença. Quem é o sujeito que está ali? Quem é o sujeito dessa pessoa? A psicologia hospitalar se propõe a ajudar o paciente a fazer a travessia do seu adoecimento”, acrescentou a psicóloga.
A jornada foi realizada no auditório do HCR e teve a participação de profissionais do GHC, que trocaram experiências e responderam às perguntas dos presentes pela manhã e à tarde. Também participaram do evento Eduardo Turra, que representou a gerência de internação do hospital, e Carlos Roberto da Silva Xavier, gerente de administração do HCR.
Créditos: Vinícius Coimbra (texto). João Gabriel Lopes (fotos).