A prevenção à violência e ao assédio e a construção de relações de trabalho baseadas no respeito foram temas de seminário realizado nessa quarta-feira, 12 de agosto, no Hospital Cristo Redentor (HCR). Promovida pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio (CIPAA) do hospital e pela Rede de Assistência Humanizada às Mulheres em Situação de Violência (Re-Human), a atividade reuniu trabalhadores e especialistas para discutir as manifestações da violência, como identificá-las e os canais disponíveis para acolhimento, denúncia e encaminhamento dos casos.
Para a presidente da CIPAA do HCR, Karine Beneduzi, a segurança dos trabalhadores precisa ser compreendida de maneira ampla, incorporando também ações de prevenção ao assédio e a outras formas de violência. A comissão atua na promoção de um ambiente de trabalho seguro e respeitoso, na orientação aos trabalhadores e também como uma das portas para o recebimento de relatos e denúncias, auxiliando no encaminhamento das situações aos setores responsáveis.
“Segurança no trabalho vai muito além da prevenção de acidentes. A CIPAA também tem o compromisso de contribuir para um ambiente de respeito e boa convivência. Queremos que o trabalhador saiba que pode nos procurar, que será ouvido e orientado sobre os caminhos disponíveis. Prevenir o assédio e a violência também é cuidar da saúde e da segurança de quem trabalha”, destacou Karine.
Re-Human e a rede de acolhimento
A atuação da Re-Human foi apresentada de forma ampla durante o seminário por assistentes sociais e psicólogas que integram o projeto. As profissionais detalharam o atendimento oferecido às pessoas em situação de violência, desde a escuta inicial até os encaminhamentos e o acompanhamento dos casos.
O trabalho ocorre de forma integrada com a Saúde do Trabalhador e pode envolver acompanhamento integral, fortalecimento emocional, cuidado em saúde mental e apoio para a construção de estratégias de rompimento do ciclo de violência. Mesmo quando a pessoa ainda não deseja avançar em denúncias ou medidas judiciais, pode procurar a equipe para receber acolhimento, orientação e escuta especializada.
A coordenadora da Re-Human, Débora Abel, explicou que a realização do seminário partiu também das situações relatadas por trabalhadoras que procuraram o serviço em busca de apoio. “Sempre tivemos essa preocupação com as colegas. Inicialmente, o serviço era voltado às usuárias, mas, quando as trabalhadoras começaram a bater à nossa porta pedindo ajuda, não podíamos ignorar. Os relatos que recebemos mostraram a importância de ampliar esse olhar e de construir uma programação que também discutisse as violências vivenciadas por quem trabalha”, explicou Débora.
Segundo ela, a proposta é fortalecer uma rede capaz de oferecer acolhimento, escuta, encaminhamento e proteção. “A Re-Human trabalha justamente com essa perspectiva de rede. Queremos que usuárias e trabalhadoras saibam que não precisam enfrentar uma situação de violência sozinhas e que existem espaços onde podem ser acolhidas, ouvidas e orientadas sobre as possibilidades de apoio”, acrescentou.
Aspectos jurídicos e formas de violência
O primeiro painel do dia abordou a violência e o assédio no ambiente de trabalho sob a perspectiva jurídica. A juíza do Tribunal Regional do Trabalho Lúcia Rodrigues de Matos tratou dos aspectos legais relacionados ao tema e destacou a importância do Agosto Lilás para ampliar a compreensão de que a violência contra a mulher não deve ser considerada um problema restrito à vida privada. A discussão abordou ainda a diferença entre a cobrança profissional legítima e práticas abusivas.
As representantes do Sindisaúde-RS Catarina Gomes e Martina da Silva Rodrigues apresentaram o fluxo de atendimento para denúncias de assédio moral e sexual e abordaram a importância de incentivar a denúncia e qualificar a forma como as vítimas são recebidas. O debate destacou que o acolhimento desde o primeiro relato é fundamental, especialmente porque muitas pessoas procuram ajuda apenas quando a situação já atingiu um nível de sofrimento difícil de suportar.
Também participaram Cláudia Denise da Silva, diretora do Sindicato dos Enfermeiros do Rio Grande do Sul, e Luciane da Silva, conselheira do Conselho Regional de Enfermagem. Entre os assuntos discutidos estiveram a necessidade de desnaturalizar a violência contra a mulher, inclusive em suas manifestações menos visíveis no cotidiano, e as formas que o assédio moral pode assumir nas relações de trabalho.
Canais de acolhimento e respostas institucionais
Durante a tarde, a programação voltou-se às respostas institucionais, aos fluxos de acolhimento e aos encaminhamentos disponíveis no GHC. A mesa reuniu representantes da Ouvidoria, da Corregedoria, da Gestão do Trabalho, da CIPAA e do Comitê de Monitoramento da Política de Prevenção e Combate ao Assédio, permitindo apresentar como as áreas podem atuar de maneira complementar diante de situações de violência e assédio.
O corregedor do GHC, Vitto Giancristoforo dos Santos, apresentou o trabalho desenvolvido pela Corregedoria e as formas de apuração das denúncias. Entre os temas abordados estiveram os critérios de priorização dos casos, o fluxo dos processos acusatórios e a utilização de instrumentos como Termos de Ajustamento de Conduta e Acordos de Compromisso Disciplinar, que, dependendo da situação, podem produzir respostas mais resolutivas do que medidas exclusivamente punitivas.
“Nosso papel é garantir que cada situação seja analisada com um olhar técnico, imparcial e uniformizado, respeitando os fluxos de apuração e as particularidades de cada caso. Ao mesmo tempo, temos a preocupação de que a pessoa que procura a instituição também seja acolhida. Por isso, construímos com a Re-Human um protocolo para que as vítimas possam receber esse suporte antes ou depois das oitivas”, explicou.
A mesa permitiu ainda apresentar as portas de entrada existentes na instituição. A Ouvidoria atua como canal de intermediação e suporte em situações como assédio moral e importunação, enquanto a Gestão do Trabalho também recebe profissionais que, muitas vezes, ainda não conhecem os demais canais. Nesses casos, a orientação busca identificar a necessidade apresentada e direcionar o trabalhador ao canal mais adequado.
Membro do Comitê de Monitoramento da Política de Prevenção e Combate ao Assédio, Carine Vasconcellos Tellier destacou a importância de transformar iniciativas de enfrentamento à violência em mecanismos institucionais permanentes de prevenção, acolhimento e proteção.
“Há três décadas, quem atua na defesa dos direitos humanos e no enfrentamento à violência contra a mulher repete que as mulheres têm direito à vida, à autonomia e ao próprio corpo. Infelizmente, muitas conquistas só vieram depois que inúmeras mulheres morreram, como ocorreu até chegarmos à tipificação do feminicídio. Por isso, precisamos transformar esforços que, muitas vezes, começam de forma individual em mecanismos institucionais permanentes de prevenção, acolhimento e proteção”, afirmou.
Créditos: Gabriel Amaral (Texto). João Gabriel Lopes (Fotos).