A troca de experiências e a escuta de relatos de trabalhadoras negras do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), de outras instituições públicas e da sociedade civil marcaram o evento em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Realizado nesta quinta-feira (30), pela Comissão Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial (Ceppir) do GHC, o encontro fez referência à data celebrada em 25 de julho e promoveu debates sobre violência, cuidado, saúde, dignidade menstrual e vulnerabilidade social.
Na abertura, a presidente da Ceppir do GHC em Porto Alegre, Fernanda Vargas, destacou o significado da data e a importância de manter o debate sobre igualdade racial nos diferentes espaços da sociedade. “Esta é uma data que nos convida a refletir, em âmbito nacional, sobre a construção de uma sociedade mais justa para as mulheres negras e a reafirmar a importância dessa luta em todos os espaços”.
A presidente da Ceppir do Hospital Geral de Bonsucesso (HGB), Renata Lopes, ressaltou o papel da escuta e da troca de experiências no fortalecimento coletivo das mulheres negras. “Este encontro é importante para celebrar e valorizar o trabalho das mulheres negras, mas, sobretudo, para ouvir suas histórias e perceber que não estamos sozinhas nessa caminhada. A trajetória da Ceppir em Porto Alegre é uma referência para nós e inspira o trabalho que estamos desenvolvendo no Hospital Geral de Bonsucesso”.
Lisiane Vieira, chefe de Gabinete da Diretoria do GHC, compartilhou relatos de sua trajetória profissional, incluindo a experiência como primeira superintendente negra do Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio de Janeiro. Em sua participação, ela também recuperou a história de Tereza de Benguela, liderança quilombola associada à resistência e à luta das mulheres negras. “É muito especial podermos estar juntas, conhecendo e reconhecendo as trajetórias das mulheres negras. É um momento de valorizar essas histórias, refletir sobre os espaços que ocupamos e reafirmar a importância dessa luta em toda a sociedade”.
A programação também prestou homenagem a Vera Lúcia Goulart da Rosa, histórica dirigente e coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado do Rio Grande do Sul (MNU/RS), que faleceu em 8 de junho. Na sequência, foram realizadas duas mesas de debates temáticos.
Violência contra a mulher e cuidado
A primeira mesa, intitulada “Violência Contra a Mulher e o Cuidado”, reuniu Graziela Silva Souza e Silva, escrivã da Polícia Civil do Rio Grande do Sul; Juliana Maciel Pinto, servidora municipal de Porto Alegre, enfermeira e epidemiologista; e Cândida Fernanda da Silva Rosa Bergqvist, inspetora da Polícia Civil do Rio Grande do Sul.
Graziela e Cândida compartilharam experiências relacionadas à violência racial e de gênero a partir de suas vivências dentro das instituições de segurança pública. Outro ponto abordado foi o número de registros de racismo no Rio Grande do Sul. Conforme os dados apresentados durante o debate, o estado lidera esses registros mesmo tendo uma proporção de população negra inferior à média nacional.
Já Juliana apresentou um estudo sobre o perfil epidemiológico das notificações de violência interpessoal em Porto Alegre. Dos 9.112 casos registrados no período analisado, de 2018 a 2022, 62,1% foram notificados em hospitais públicos. As mulheres representaram 71,4% dos casos. A epidemiologista também explicou o funcionamento do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva). Nos casos previstos como de notificação imediata, como os de violência sexual, a comunicação deve ocorrer em até 24 horas. Apesar disso, o levantamento identificou registros realizados mais de mil dias depois do episódio de violência.
Dignidade menstrual e vulnerabilidade social
A segunda mesa, “Dignidade, Saúde e Empoderamento da Mulher Negra”, contou com a participação de Gabrielle Selau, comunicadora, ativista digital e coordenadora do Projeto Jane pela Dignidade Menstrual, de Alvorada, e Tatirrê Paz, psicóloga, técnica social e mestranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Gabrielle apresentou o trabalho desenvolvido pelo Projeto Jane, que realiza a entrega de absorventes higiênicos a pessoas em situação de vulnerabilidade. A iniciativa busca reduzir os impactos da falta de acesso a itens básicos de higiene menstrual, que podem comprometer a saúde, o bem-estar e a participação em atividades cotidianas. Entre as consequências estão as faltas recorrentes à escola, que podem contribuir para a evasão escolar de meninas e adolescentes que menstruam, além de ausências no trabalho e do afastamento de atividades sociais.
A partir de sua experiência na assistência social, Tatirrê abordou as relações entre saúde, cuidado e vulnerabilidade. A psicóloga destacou a presença majoritária de mulheres negras entre as pessoas atendidas pelos serviços e defendeu uma compreensão da vulnerabilidade social que não esteja limitada ao critério de renda, mas que também considere as condições de vida, o acesso a direitos e as redes de proteção disponíveis.
Créditos: Texto: Gabriel Amaral / Fotos: João Gabriel Lopes