Criado em 1985, o Serviço de Infectologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC) comemora, neste dia 1º de dezembro, três décadas de funcionamento. Com o intuito de dedicar um espaço na assistência exclusivo para doenças transmissíveis, em especial a Aids, o Serviço foi o primeiro criado em hospital público no RS, rompendo barreiras sociais e possibilitando o salvamento de muitas vidas em meio a uma época rodeada de tabus e preconceitos.
Hoje, é referência em formação, pesquisa e cuidado humanizado. Entre os seus feitos, está a manutenção de uma taxa de transmissão vertical (de mãe para filho) inferior a 1%, indicador que iguala o Conceição aos serviços dos Estados Unidos e da Europa, que mantêm a mesma taxa. Além disso, oferece medicina estética para tratar a lipodistrofia e garante acesso a uma equipe multidisciplinar. Na área de formação, também foi pioneiro ao criar, em 1992, a primeira residência em Infectologia.
“O Serviço de Infectologia do HNSC associa um atendimento de qualidade com pesquisa de ponta, sua equipe tem profissionais reconhecidos na comunidade científica. É um trabalho que muito nos orgulha”, afirma a diretora-superintendente do GHC, Sandra Fagundes. “É nosso desejo potencializar suas contribuições para a rede de cuidados integral à saúde”, complementa.
Histórico
Ao sair da Emergência e buscar o reconhecimento do serviço junto à Sociedade Brasileira de Infectologia, Breno Riegel Santos, idealizador e chefe do Serviço de Infectologia, deu início à construção do atendimento especializado que o hospital oferece hoje. “Como era pouco o conhecimento sobre a Aids, as formas de contágio e formas de profilaxia, as primeiras medidas de tratamento foram experimentais. Não se sabia muito sobre o vírus, mas se tinha muito medo”, conta Riegel.
A partir de 1986, a infectologista Marineide Gonçalves de Melo se aliou ao projeto do Serviço de Infectologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição. “O começo foi muito duro. Passamos por muito desgaste emocional. Ninguém queria cuidar de paciente soropositivo. O preconceito existia entre os próprios médicos”, conta Marineide.
Um dos principais mitos que cercam o tema é o estigma de que determinadas pessoas têm maior probabilidade de contrair o vírus. “Não existe grupo de risco. A pessoa pode ficar assintomática por muito tempo, em média de 7 a 11 anos, após contrair o vírus e ficar transmitindo a infecção sem apresentar nenhum sintoma da doença. Com isso, muito mais pessoas são expostas. Por esse motivo, todo mundo deveria fazer o teste anti-HIV”, destaca Riegel.
Pioneirismo
O Conceição foi o primeiro hospital público do Rio Grande do Sul a ter um Serviço de Infectologia. No início, dispunha de apenas dois médicos e seis leitos reservados para esta ala. Hoje, a estrutura funciona com nove médicos, um ambulatório, Hospital-Dia e 26 leitos de internação.
Em 1992, o Serviço também foi o primeiro a abrir residência em Infectologia, e, desde então, já formou 55 médicos especializados na área.
Em 2003, a construção do Hospital-Dia, para pacientes com Aids que recebem medicação diária, mas não necessitam estar internados, serviu de referência para o Ministério da Saúde elaborar a portaria que regulamenta o atendimento de pacientes soropositivos em Hospital-Dia em todo o Brasil.
Inovações para um cuidado integral
A Linha de Cuidado DST-Aids é uma das principais inovações do Serviço, que busca, a cada novo caso, identificar necessidades e elaborar estratégias para o tratamento. O fluxo engloba todas as possibilidades de assistência, partindo da internação, ambulatório e Hospital-Dia, Unidade de Prevenção da Transmissão Vertical, Pediatria, Psiquiatria, Correção de Lipodistrofia e Pesquisa Clínica.
“Aids necessita de atendimento multidisciplinar, pois é uma condição com muitas complicações, e procuramos dar este enfoque desde o começo do Serviço”, explica a infectologista Marineide Gonçalves de Melo. Após o diagnóstico, os pacientes soropositivos ou doentes são mantidos na Linha de Cuidado, sem necessidade de serem encaminhados a nenhum outro hospital.
A Unidade de Prevenção da Transmissão Vertical (UPTV) atende o pré-natal de gestantes com HIV e tem mantido, há mais de uma década, a taxa de transmissão do vírus em menos de 1% dos recém-nascidos. A partir da observação de que algumas gestantes com resultado negativo para HIV no princípio do pré-natal acabavam sendo infectadas no decorrer da gestação, foi instituída a realização do teste rápido em 100% das mulheres em pré-parto no Centro Obstétrico, preparando a equipe para lidar com casos positivos e evitar a transmissão do HIV das gestantes para os bebês. E o cuidado não se restringe apenas às mães. O Serviço também foi o primeiro a desenvolver o TRIPAI, a testagem rápida em pais durante o pré-natal, a fim de evitar o contágio tardio na gravidez, e, consequentemente, a transmissão do vírus para o bebê.
Além disso, o Serviço de Infectologia possui pediatras e psiquiatras especializados em casos de Aids para prestar assistência direcionada no tratamento.“Aqui reunimos um complexo de atividades que vai muito além de diagnóstico e tratamento. Temos uma estrutura que enfrenta todos os problemas relacionados”, ressalta Riegel.
Desde 2008, a Infectologia do HNSC também oferece medicina estética para tratar a lipodistrofia, condição decorrente do tratamento da infecção que causa distribuição desigual das gorduras do corpo e, na maioria das vezes, requer preenchimento facial. “Ao longo dos anos, a lipodistrofia acabou se tornando ‘a cara da Aids’, pois era muito comum se manifestar em pacientes em tratamento com os primeiros remédios antirretrovirais. Sabemos o quão difícil é para alguém ser rotulado como HIV positivo. Nesse sentido, avaliamos todos os casos e consideramos importante tratar também da parte estética do tratamento, quando necessário, pois a melhora dos pacientes está diretamente relacionada com o bem-estar e a autoestima”, destaca Marineide.
No campo da pesquisa clínica, os infectologistas Breno Riegel Santos e Marineide Gonçalves de Melo estão em constante contato com pesquisa em Aids, por meio de organizações de diversas partes do mundo que propõem estudos e estratégias de tratamento e prevenção, em esferas governamentais e farmacêuticas. Juntos, os profissionais da Infectologia já têm mais de 40 publicações internacionais.
Dentro dessa perspectiva, o Laboratório e a Farmácia do Conceição passam por treinamentos anuais em boas práticas para capacitar a equipe, conferindo qualificação internacional aos dois setores da área. “Para ter pesquisa, tem que ter boa assistência”, defende Riegel.
Buscando ajuda
O acesso ao Serviço de Infectologia do HNSC se dá por meio da Emergência do hospital ou encaminhamento dos postos de saúde. O médico da atenção primária nas unidades de saúde pode encaminhar pacientes para atendimento especializado via sistema AGHOS, mecanismo da Secretaria Municipal da Saúde para a gestão e regulação do acesso à saúde.
Em casos de abuso sexual, relação desprotegida ou exposição acidental, o usuário pode recorrer à profilaxia pós-exposição (PEP), que é o início emergencial de antirretrovirais para uso por quatro semanas, buscando, assim, evitar a transmissão do vírus HIV. Riegel explica que o vírus necessita de algum tempo para se estabelecer no organismo, que é de poucas horas, por isso, é importante procurar ajuda o mais rápido possível. Não é necessário comprovar a exposição. Basta buscar atendimento no Serviço de Emergência do hospital, que funciona 24h por dia, sete dias por semana.
Créditos: Mariana Ribeiro