O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) iniciou, na manhã desta sexta-feira (26), um estudo pioneiro que avaliará o uso de canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo do trabalho é reunir dados para mensurar, do ponto de vista clínico e financeiro, a possibilidade da incorporação dessas medicações na rede pública brasileira.
Para marcar o início da pesquisa, uma cerimônia foi realizada no auditório do Centro de Oncologia e Hematologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), em Porto Alegre, onde um paciente recebeu a primeira dose da medicação.
"O Brasil está sendo um dos pioneiros na introdução e utilização dessa medicação em um sistema público universal. Poucos países fizeram isso. Acreditamos que ela pode reduzir a necessidade de cirurgia bariátrica ou permitir a realização da cirurgia em pacientes que hoje não têm condições clínicas de fazê-la", disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o evento, que reuniu profissionais do GHC, autoridades e imprensa.
Segundo o ministro, o projeto do GHC servirá como base para a rede pública compreender como o medicamento pode ser usado no tratamento de obesidade e diabetes, além de futuras incorporações ao SUS. Isso ocorrerá porque, no projeto-piloto, os profissionais poderão acompanhar a evolução dos pacientes, dimensionar a perda de peso e conhecer os efeitos colaterais do tratamento. Outro desafio do país envolve a parte econômica do uso da medicação, já que, atualmente, as canetas emagrecedoras estão disponíveis apenas no setor privado.
"É fundamental garantir a produção local para que mais empresas produzam essa medicação e, com isso, derrubem os preços. Não pode acontecer como ocorreu com a insulina, quando poucas empresas internacionais tinham quase o monopólio da produção. Tudo que envolve o SUS diz respeito a milhões de pessoas. Portanto, ou você tem capacidade de produzir no país, ou não há sustentabilidade na oferta dessa medicação”, acrescentou o ministro.
Na apresentação, foi destacado o aumento da obesidade no país. Segundo levantamento de 2025 da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, o número de pessoas com a condição entre os brasileiros saltou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Também foi informado que, no SUS, houve aumento de 57% nos tratamentos relacionados à doença entre 2022 e 2025. No contexto global, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 1 bilhão de pessoas vivendo com obesidade.
O cenário é também uma barreira a ser enfrentada para melhorar a qualidade de vida dos gaúchos. “O Rio Grande do Sul é um dos Estados com maior índice de sobrepeso e obesidade do país. Portanto, isso tudo mostra que nós temos um grande desafio no Sistema Único de Saúde. Esse estudo vai contribuir muito para que a gente possa reduzir esses índices”, afirmou Gilberto Barichello, diretor-presidente do GHC.
Primeira dose
No início da cerimônia, Guilherme Henrique Streppel Panichi, 39 anos, tomou a primeira dose de semaglutida, princípio ativo que será usado no projeto-piloto do GHC. Ele será uma das 250 pessoas acompanhadas pelas equipes para avaliar a perda de peso nos próximos 24 meses, período de duração da pesquisa. Após tomar a dose, Guilherme recebeu instruções sobre o manuseio do medicamento e as próximas etapas do tratamento.
“Tenho problemas de excesso de peso desde os meus 6 anos. Entrei na fila da bariátrica, mas sempre tive receio por conta da minha saúde e nunca fiz [a cirurgia]. Fiquei muito feliz quando soube dessa pesquisa e fui convidado para participar. Hoje, fazer esse tratamento no setor privado é inviável para mim do ponto de vista financeiro, pois não tenho condições de arcar com os custos. Então, ser um dos participantes do estudo é um privilégio e uma oportunidade de ter uma vida melhor”, disse o paciente, morador de Porto Alegre.
Como funcionará a pesquisa
Segundo Fernando Anschau, um dos pesquisadores do projeto-piloto e head de Inovação do GHC, a pesquisa será feita apenas com pacientes que estão na fila do SUS para a cirurgia bariátrica. Denominado Real-Bari, o trabalho disponibilizará o tratamento para pessoas com obesidade grave.
Entre os pacientes atendidos pela instituição, 91% têm obesidade mórbida, com o Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 50. Além disso, apenas 47% possuem condições clínicas para realização de cirurgia bariátrica. A comorbidade mais prevalente nesse grupo é a hipertensão arterial.
“Chamamos esse projeto de ‘ponte para a cirurgia bariátrica’. Nosso público-alvo precisa de uma condição melhor de saúde para fazer a cirurgia. Com esse trabalho, nossa perspectiva é encurtar o tempo da fila e devolver qualidade de vida em um prazo menor”, disse o médico.
Serão avaliados indicadores essenciais para compreender como o tratamento pode ser adaptado à realidade do SUS, como o percentual de perda de peso, a evolução da qualidade de vida, resultados de exames clínicos, condições pós-operatórias e os custos dos processos. Dessa forma, a pesquisa gerará evidências nacionais aplicáveis à prática clínica, para orientar decisões assistenciais e subsidiar futuras estratégias de organização da atenção à obesidade grave.
Segundo Anschau, o trabalho não se resume apenas a entregar a medicação: há um braço de capacitação para os profissionais de saúde do SUS e de esclarecimento do tema à população. “Precisamos consolidar na sociedade e nos consultórios o entendimento de que a obesidade é uma doença crônica severa”, resumiu o pesquisador.
Quem serão os participantes
O programa do GHC envolverá pacientes que estão regulados pelo SUS para o ambulatório de Endocrinologia do HNSC. Assim, a pesquisa não prevê a abertura para a entrada de novos voluntários. O estudo investigará a efetividade e a segurança do uso da semaglutida na perda de peso com acompanhamento periódico por 24 meses.
Além do vínculo com o HNSC, para serem incluídos no estudo, os participantes precisam preencher requisitos específicos. Entre eles estão apresentar Índice de Massa Corporal maior ou igual a 40 kg/m² ou maior ou igual a 35 kg/m² associado a pelo menos uma comorbidade relacionada à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia e apneia obstrutiva do sono.
Também é preciso ter o diagnóstico de obesidade estabelecido há pelo menos 12 meses e apresentar falha documentada no tratamento clínico convencional (dieta estruturada e atividade física) por pelo menos 12 meses. Outro requisito é ter capacidade de compreender e realizar a autoaplicação da medicação (ou contar com um cuidador habilitado para isso) e disponibilidade para comparecer às consultas presenciais no hospital.
“O paciente precisa de dieta, nutricionista, mudanças de estilo de vida, mas também dessas novas tecnologias que são revolucionárias”, disse a endocrinologista do GHC Kátia Elisabete Pires Souto, que também participa do projeto.
Além da perda de peso e da melhora da qualidade de vida dos pacientes, a ideia do projeto é ter uma análise econômica do uso da medicação. “Vemos que a obesidade está avançando nas classes menos favorecidas financeiramente, nos grupos de mulheres e gestantes. Tudo isso pressiona o SUS. Somos a favor do tratamento da obesidade, seja cirúrgico ou clínico. A obesidade não tem cura, mas tem tratamento”, acrescentou Kátia.
O projeto será acompanhado pelo Ministério da Saúde e realizado com recursos transferidos ao hospital pela Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faurgs), provenientes de aporte financeiro da produtora do medicamento.
Créditos: Texto: Vinícius Coimbra Fotos: João Gabriel Lopes/Inpacto/GHC e Rafael Nascimento/MS