Cada número carrega uma história: de mães, filhas, netas, de mulheres que têm em comum a experiência de terem sido vítimas da violência. Em dois anos, 1.959 delas foram atendidas pela Rede de Assistência Humanizada às Mulheres em Situação de Violência (Re-Humam), do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em busca de acolhimento, escuta qualificada e apoio para recomeçar.
Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (30), durante evento que marcou os dois anos da Re-Humam e reuniu diferentes instituições para reforçar o enfrentamento à violência de gênero. Na ocasião, foram formalizadas parcerias estratégicas, como a assinatura do termo de cooperação com a Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul, além de protocolos de fluxo com a Corregedoria e a Saúde do Trabalhador do GHC.
A coordenadora da Re-Humam, Débora Cristina Abel, destacou que os indicadores revelam um cenário preocupante, em linha com o aumento dos casos de violência contra a mulher no Rio Grande do Sul. Nos dois primeiros anos da rede, houve crescimento de 22% nos atendimentos, que passaram de 884 no primeiro ano para 1.075 no segundo. A violência doméstica segue predominante, representando 52% dos casos, com aumento de 19% no período. Também chama atenção o crescimento da violência sexual, que subiu 56% no último ano, somando 271 registros.
“Gostaria de estar aqui para apresentar outros números, dizer que diminuímos significativamente os atendimentos porque a violência reduziu, mas infelizmente essa não é a nossa realidade. Continuamos necessários, sendo chamados e atuando como ponte, escuta e acolhimento — muitas vezes, o primeiro lugar onde essa mulher consegue chegar. A partir de agora, também vamos avançar na qualificação dos dados, com uma análise mais detalhada do perfil das vítimas e um sistema mais ágil de busca ativa no Hospital Cristo Redentor”, afirmou.
Criada em março de 2024, a Re-Humam é uma rede interna do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) que atua de forma integrada em diferentes pontos da instituição, incluindo os hospitais Conceição (HNSC), Fêmina (HF), Criança Conceição (HCC) e Cristo Redentor (HCR), a UPA Moacyr Scliar, os três Centros de Atenção Psicossocial (Caps), o Ambulatório de Identidade de Gênero (Amig), o Consultório na Rua e as 12 Unidades Básicas de Saúde do GHC, em parceria com a Escola GHC, comissões e gerências.
A sede fica na sala Elza Soares, no Hospital Cristo Redentor, referência em trauma. Esta unidade responde por 61% dos atendimentos da rede e representa o principal ponto de acesso dos casos. Na sequência, aparecem o Hospital Nossa Senhora da Conceição (15%) e o Hospital Fêmina (13%), além de atendimentos registrados na UPA, Caps e demais serviços. A maior parte das situações atendidas envolve violência física (69%), seguida pela violência sexual (23%).
Parceria entre GHC e Defensoria para apoiar as mulheres
O atual cenário da violência de gênero exige resposta institucional e atuação integrada. Para o diretor-presidente do GHC, Gilberto Barichello, é preciso olhar para os impactos que chegam de fora e também para dentro da própria instituição. “Os problemas da sociedade chegam até nós, e o GHC precisa agir diante deles, tanto no acolhimento de quem busca atendimento quanto na construção de políticas internas que enfrentem essas situações”, destacou.
A assinatura do convênio com a Defensoria Pública fortalece a integração da rede e amplia o acesso aos serviços. O defensor público-geral do Estado, Nilton Leonel Arnecke Maria, ressaltou que a iniciativa aprofunda um trabalho já em andamento. “Esse convênio nos permite unir essa rede, porque a mulher vítima está em uma situação tão grave, que não consegue, muitas vezes, percorrer todas as etapas do atendimento. Ela precisa de atendimento de saúde, muitas vezes de saúde mental, e de atendimento jurídico. Não podemos permitir que se perca nesse percurso”, disse.
A importância dessa articulação também foi destacada pela procuradora de Justiça Carla Carrion Frós, coordenadora da Central de Apoio às Vítimas do Ministério Público do Rio Grande do Sul. “O nosso trabalho lá na ponta só vai ser efetivo com uma rede de proteção devidamente articulada. A rede existe, os serviços existem, mas sem articulação nós não estaremos protegendo essas mulheres.”
O evento também contou com a exposição “Arrancadas de Nós: histórias que precisam ser contadas”, proposta da deputada estadual Stela Farias. A iniciativa integra a atuação da Força-Tarefa de Combate ao Feminicídio e utiliza a arte como ferramenta de sensibilização e enfrentamento à violência. A mostra reúne fotos e histórias de mulheres vítimas de feminicídio, para dar visibilidade a trajetórias interrompidas pela violência.
Rede de proteção em debate
A programação reuniu representantes da Segurança Pública, do Judiciário e da assistência social para discutir o ciclo da violência doméstica, os desafios para o rompimento e a importância da atuação conjunta entre os serviços.
Participaram do painel a delegada Waleska Aline Viana de Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam); Raquel Garbin Mársico, coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher Márcia Calixto (Cram-PMPA); a defensora pública Paula Granetto, coordenadora do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (Nudem); a juíza Taís Culau de Barros, corregedora e coordenadora da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça (Cevid/TJRS); a soldada Andressa Simionato Sthör, integrante da Patrulha Maria da Penha; e a promotora de Justiça Carla Carrion Frós, coordenadora da Central de Apoio às Vítimas do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Durante o encontro, foram apresentados os fluxos de atendimento e o funcionamento dos serviços que integram a rede de proteção. A juíza Taís Culau de Barros explicou como funcionam as medidas protetivas no âmbito jurídico, enquanto a Patrulha Maria da Penha detalhou como ocorre o acompanhamento das vítimas. As participantes também abordaram como os atendimentos são realizados na prática e reforçaram a importância da atuação integrada entre os órgãos públicos para garantir acolhimento e proteção às mulheres.
A promotora de Justiça Carla Carrion Frós ressaltou o papel do Ministério Público no apoio às mulheres e destacou a atuação da Sala das Vítimas, chamada “Espaço Bem-Me-Quer”, voltada ao acolhimento de quem busca ajuda. Segundo ela, é nesse momento de maior fragilidade que muitas mulheres conseguem romper o ciclo da violência, o que torna ainda mais essencial que os serviços estejam integrados e atuem de forma articulada para garantir proteção efetiva.
Créditos: Texto: Daiane Balardin / Fotos: Chico Lisboa